Tu navegas no Pinterest, vês o House Rules, até os queridos, fofinhos que mudam casas. Tu vais pontualmente à Leroy, ao Aki, ao IKEA (aproveitas sempre para aviar cinnamon buns). Espreitas a Área, namoras a Zara Home. Então, um dia, a magia acontece.
Tu decides remodelar a tua casa! Tu decides fazê-lo tu mesma!!
Tu... és claramente alguém com problemas. Profundos.
Mas avanças. Entras na grande superfície do material de construção. Sabes que queres pintar a casa num cinza médio e confortável. Constatas que há cerca de 321 cinzas diferentes com nomes como cinza lunar, cinza nuvem, cinza zinco, cinza pedra, cinza prata, cinza frio, cinza rato, elefante, pombo ou guaxinim.
Começas a suar em bica com a pressão. Completamente desorientada com os 321 cinzas. Só queres um cinza. Escolhe um cinza. Qualquer um! Escolhe! Por favor, escolhe!!
Pegas num. Metade do trabalho ta feito. Vais para casa. Já tapaste buracos, lixaste, limpaste, puseste fita, forraste o chão. Pões uma touca no cabelo.
Tu és o rambo da pintura com rolo!
Tu és o rambo da pintura com rolo!
Fazes o teste. Parece bem. A sério, mesmo fácil. Pintas um quarto inteiro. Olhas.
O cinza afinal é roxo. Vá, beringela claro. Com tons de cinza. Mas não é cinza. Só por volta das 15:27, com o sol a dar de esguelha naquela nesga de 4,4 cm entre a janela e o sítio da cama. Aí, nesse momento, é um cinza perfeito.
Nisto, passaram 3 dias. Não entras em pânico, acontece. Tentas esquecer que compraste 15 lt de um cinza arroxado com laivos de beringela e sombras de prata. Voltas à grande superfície. Compras outro cinza. Voltas para casa. Testas. Sim, agora é que é. Deixas o primeiro quarto a secar e começas tudo de novo para pintar o corredor.
Já está. Então, olhas. Se calhar é mais azul do que cinza. Isto é definitivamente azul. Chamas os vizinhos, o marido. Sim, é azul. Quase cinza, mas azul. Calma. Isto não é mais forte que tu. Tu não és de desistir. Tu és forte. Tu estás tão perto de chorar em posição fetal...
Voltas a sair. Estás quase há uma semana nisto. Os miúdos estão todos em casa este fim de semana. Tens que pensar rápido. Não. Não ponhas branco. Vai com calma. Tu és capaz de escolher um cinza. É sexta feira, tens de avançar. Não sabes o que fazer com o quarto beringela. Nem com o corredor azul.
Voltas à grande superfície. Terceira vez. Fazes xixi antes de sair, e voltas lá. Ao corredor dos 321 cinzas....
Neste momento o rambo da pintura a rolo virou uma criança no primeiro dia de escola. Tu és basicamente um saco de nervos esfrangalhados. Aterrorizada pela trincha, intimidada pelo rolo. Mal consegues andar. Pegas aos tremeliques no terceiro cinza. Que é esverdeado, na parede do segundo quarto. Repetindo: es ver de a do. Esverdeado.
Hoje é domingo. Acordas com um miúdo na tua cama, os outros dois dormem no meio de caixas, móveis empilhados e testes de tinta na parede. Metade da tua casa está agora forrada com jornais e plásticos, há móveis amontoados no meio das divisões. As crianças crescem neste ambiente. Sim, este ambiente: um quarto beringela/cinza, um corredor azul/acinzentado e uma parede cinza/esverdeado.
Depois pensas nisso. Agora a prioridade são os garotos e o vosso fim de semana. Tens um lanche na casa nova dos amigos. Entras. A sala é cinza. Exactamente como querias. Cinza. Um cinza perfeito. O teu cinza.
Ela: "Gostas? Foi facílimo escolher a cor, mas mandamos pintar que nós não somos tão jeitosos como tu, cáustica!"
Tu, com sorriso amarelo, a suar, quase a chorar e com o estômago as voltas: "Ah, ah, ah isto não é para todos, não!"
Claramente.
E vais enfardar bolos o resto da tarde.
Ju, a "cáustica"
E vais enfardar bolos o resto da tarde.
Ju, a "cáustica"

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