10 de outubro de 2016

Uma manhã normal







Parte 1 - O pequeno-almoço
Tempo: 30 a 45 minutos, com jeitinho.
Sentamos os dois miúdos cada um na sua cadeira e o pai vai acabar de se arranjar. Deito um bocadinho de leite num copo para misturar a vacina da gripe (na verdade, cereais lácteos que o puto não bebe leite). Ponho uma palhinha e vai para a mão do miúdo. Preparo o pão com manteiga para ele e começo a dar o iogurte a ela.
Ele diz que afinal quer fiambre. Vou buscar uma fatia de fiambre, ponho no pão e dou-lhe o resto do leite (cereais lácteos, que o puto não bebe leite). Afinal quer com queijo. Digo-lhe que hoje não há queijo. Amanhã. Que coma o pão e beba o leite (cereais lácteos, tá?).
Ela grita -  Mais ioguta, mais ioguta! Mais duas colheres de iogurte para ela. Vou buscar uma toalhita para limpar o leite (cereais lácteos, tá?) dos calções dele e dou graças a Deus por não ser dos dias em que é preciso mudar-lhe a roupa toda. Ela grita novamente por ioguta, duas vezes não vá eu não ter percebido à primeira. Não sei o que tem a miúda que diz sempre tudo duas vezes, duas vezes.
Ele quer ver a Patrulha Pata Novos Episódios! Ponho a televisão no Panda. Está a dar outra coisa qualquer. Digo-lhe que vê a Patrulha Pata logo, depois da escola. Ela agora quer baiacha, baiacha! (tradução: bolacha, bolacha!) Vai um bocado de pão para a mão dela e mais duas colheres de iogurte. Ponho o rapaz a fazer xixi.
Ela avisa – cocó, bacio, cocó bacio! Não sei se está a falar dele se dela. Mais umas colheres de iogurte para acabar. Comida e água para o cão, comida e água para os gatos. Vestimos o casaco a um, o casaco ao outro (aos miúdos, não ao cão e aos gatos) e toca a sair de casa.
O tempo para entrar no carro é medido pela quantidade de vezes que ele salta do passeio para o asfalto e de novo para o passeio…

Parte 2 - O caminho para a escola
Tempo: 15 a 20 minutos, se o trânsito ajudar.
Ele quer a música do galo. Não faço ideia qual é a música do galo. Ponho a dos patinhos. O trânsito em pára – arranca. Ela quer qualquer coisa que só ela sabe. Ele grita que quer a música do galo. Lá o distraio com outro tema qualquer. Ela canta lá atrás a última sílaba de cada verso. Ele ri-se. E o trânsito em pára - arranca. Vem um cheirinho bem conhecido do banco de trás. Ela bem que avisou, só tem 18 meses mas sabe o que quer.
Bolas, miúda, podias ter esperado mais uns 15 minutos…

Parte 3 - A chegada à escola
Tempo: 10 a 15 minutos, se o miúdo ajudar.
Saio do carro com o telemóvel num bolso e a chave do carro no outro e penso “a ver se hoje não me esqueço de trancar o carro”. Abro a porta do lado dela. A miúda tirou os sapatos, tirou as meias e voltou a calçar os sapatos. Penso cobras e lagartos e tiro os sapatos à miúda, procuro as meias no banco traseiro, no chão, na cadeira dele, debaixo do rabo dela… calço-lhe as meias e de novo os sapatos. Pego-lhe ao colo. E aí lembro-me… que cheirinho!
Abro a porta do lado dele. Solto o cinto da cadeira. Ele ri-se e põe-se a tentar apertar o cinto outra vez. Empoleiro a miúda na anca e puxo pelo braço dele (devagar, que o miúdo é magricela e ainda se desconjunta todo). Ele empoleira-se entre os dois bancos da frente para ir mexer nos botões do tablier. E agora? Não chego lá… Ponho a miúda no chão? É que isto é um parque de estacionamento e estão sempre carros a entrar e a sair.
Ele lá se convence a sair do carro e desata a correr. Já disse que isto é um parque de estacionamento e estão sempre carros a entrar e a sair? Dou-lhe um berro e seguro-o pelo capuz do casaco. O caminho até à porta da escola é todo um percurso para a frente e para trás que só ele compreende. Ela ri-se o caminho todo.
Entrego-o a ele primeiro. Depois a ela. Aviso que ela vem com presente – fez agora mesmo, no carro (não vão pensar que saí de casa com a miúda neste estado…).
Dou meia volta, saio porta fora e penso “será que tranquei o carro?”…

E pronto, é isto. São 9 da manhã e eu já ia dormir. 


a  "cota"

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